quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

MOÇAMBIQUE - OUTUBRO DE 1974



MOÇAMBIQUE –  OUTUBRO/1974


Por: Olegário Silva
Sargento Mor da FAP

Depois duma DIPER (avião Nordatlas mais tripulação, durante oito dias seguidos às ordens do Comando da 3ª. Região Aérea no Norte de Moçambique) para cumprir missões previamente marcadas com o Exército e Marinha em Moçambique, especialmente no transporte de tropas, mantimentos ou material de guerra, além de outras que apareciam diariamente, sou dispensado do serviço para preparar as minhas coisas para regressar à metrópole pois tinha acabado a comissão de serviço.
No dia 16 de Outubro sou chamado pelo comandante da Esquadra-102, Major Taveira Martins, que me diz que no dia seguinte temos que ir à Zâmbia e à Tanzânia buscar a FRELIMO, material de guerra e fardamento. Respondo-lhe que estou dispensado e que tenho muitas coisas para fazer, mas de nada valeu pois diz que necessita de mim e que preparasse a viagem. No entanto deu ordens para alguém embalar e enviar para Lisboa as minhas coisas já que a família me acompanhava na comissão, tinha quatro filhos e havia muito que fazer.
-No dia 17OUT74 descolámos para Nampula e depois Lusaka na Zâmbia onde fomos buscar três civis da FRELIMO que depois de aterrarmos em Dar-es-Salam na Tanzânia nunca mais os vi até acabar a missão. E na capital da Tanzânia tenho logo o primeiro choque no aeroporto Julius Nyerere ao ver exposto um avião T-6 da FAP que serviu para a fuga do Tenente Piloto Aviador Jacinto Veloso, mais tarde ministro do governo de Samora Machel. Somos recebidos por Marcelino dos Santos e Alberto Chipande aparecendo mais tarde Joaquim Chissano, indigitado  primeiro ministro de Moçambique e a seguir PR. Fomos conhecer a cidade, muito bonita com o problema das estradas muito esburacadas, enquanto carregavam o avião já que não tivemos autorização para almoçar e não saímos do jeep, sempre seguidos por um carro militar. Tivemos que nos socorrer das rações de voo para mitigar a fome e pela primeira vez tal sucedeu desde o início da minha comissão. Fiquei desiludido por também não ter conhecido Lusaka mas a bem dizer nem nos deixaram sair do avião, já que estávamos em países estrangeiros com quem Portugal ainda não mantinha relações. Qual não foi o nosso espanto quando entrámos dentro do avião para o  regresso e o mesmo estava cheio quem nem um ovo de armas “kalashnikov”,  outro material de guerra, fardamento, etc. tudo sem guias e à balda. Veio connosco Alberto Chipande, posteriormente ministro de Moçambique. Fizemos Dar-es-Salam-Nampula e aqui começámos um périplo por locais que já conhecíamos, desde Mueda a Nangololo, Macaloge, Nangade, Marrupa, Tete, etc. e acabámos em LM onde deixámos Alberto Chipande e o resto do material. Falta-me referir que nesta missão fomos acompanhados por mais 3 aviões Nordatlas. E regressámos dia 22OUT74 a Dar-es-Salam, desta vez só o nosso avião mas acompanhados por um médico da FAP (dr. Colarinha) que embarcou em Nampula. Fizemos LM-Nampula-Dar-es-Salam onde já se encontrava novamente Alberto Chipande (!!!!). Aterrámos cerca das 9 horas locais. Depois de esperarmos horas desesperantes por quem havíamos de transportar e debaixo dum sol escaldante, descolámos cerca das 15 horas para MTWARA. Havia-nos sido dito que agora e por nos termos queixado da forma como tínhamos sido recebidos na primeira vez, nos seria servido o almoço num hotel da capital tanzaniana. Mas mais uma vez descolámos com a barriga encostada às costas… Acompanharam-nos desta vez Joaquim Chissano, Armando Guebuza, Alberto Chipande , Sebatião Mabote e outro que não recordo o nome, além dos seguranças armados até aos dentes, assessores, etc. etc.,  tendo Marcelino dos Santos recusado viajar connosco e Jacinto Veloso aproveitou a deixa para também ficar em Dar-es-Salam. Este talvez para não reencontrar os seus ex-camaradas da Força Aérea Portuguesa!
A cidade (?) de MTWARA fica também na costa e um pouco acima de Mocímboa da Praia, quase na fronteira com Moçambique. E aqui começa aquilo a que chamo os piores momentos que passei na guerra do Ultramar pois ficaram eternamente na minha memória. Até ultrapassam as vezes que fomos abonados, especialmente uma que sucedeu à descolagem de Nangololo já depois de termos sido castigados com um verdadeiro fogo de artifício quando estávamos a parar para descarregar e tivemos que nos abrigar na igreja. Mas continuando. Aterrámos cerca das 4 da tarde e imediatamente o avião ficou rodeado de vários carros militares com armas montadas em cima, de todas as medidas e calibres, que parecia que tinha chegado alguém para os invadir. Saíram os elementos da FRELIMO e ficámos sós e abandonados perto da torre de controle num “taxway” de terra batida. Não sabemos donde mas apareceram de repente e ficámos rodeados de centenas de crianças, maltrapilhos, coitados, e todos de mão estendida. Desde a aterragem que o Dr. Colarinha, pediatra, estava a fotografar tudo tendo já gasto um rolo e ia no segundo, mas duma janela do avião. Vimos logo o que as crianças queriam e é óbvio que as rações de voo desapareceram num instante, mas longe de pensarmos no que ia suceder dali para a frente e na falta que nos iam fazer pois ainda nem sequer almoçado tínhamos. Aparecem de repente os militares nos carros e fomos cercados com as armas apontadas ao peito e encostados ao avião como se fôssemos feitos prisioneiros. Sem sabermos o que se passava e com o chefe a falar num inglês/landim que ninguém percebia nada, cada vez mais ameaçadores e a nossa sorte é que aparece Alberto Chipande, nunca soubemos como nem donde apareceu, que nos explica que eles querem a máquina fotográfica e o rolo que o doutor tinha tirado. Foi o controlador que estava na torre que se apercebeu do “fotógrafo” e chamou o exército dando azo aquela trapalhada toda que nos fez passar largos minutos de terror. Como eu também levava uma máquina disse ao doutor para ir buscar a minha e a entregar e ele ficou com a “reportagem” que tinha feito. Os carros do exército nunca mais nos abandonaram! Quando da nossa chegada à Beira ofereceu-me a máquina dele, um “Ferrari” na altura, que ainda conservo. Depois de mais uma espera e com a promessa de que íamos ser levados para um hotel para jantarmos e passarmos a noite pois já não havia condições para descolarmos, o calhambeque que nos levou “despejou-nos” junto dum hospital da FRELIMO onde se encontravam as pessoas que tínhamos transportado. Muitas desculpas pelo sucedido, muitas promessas e fomos apresentados a um casal de médicos portugueses (!), naturais de Braga, que ali prestavam serviço. Muita amabilidade mas esqueceram-se que estávamos fardados e que os mutilados da guerra, estropiados e feridos em combate estavam ali. Eles não queriam saber quem éramos nem entenderam o que lhes explicaram, os seus olhos expeliam ódio e se pudessem matar todos ali tínhamos ficado. Fomos insultados, cuspidos, etc. apesar das palavras de Joaquim Chissano e dos médicos, mas eles não ouviam ninguém e apuparam-nos na sua língua. Que vergonha sofremos e sem nos podermos defender!!! De seguida fomos encaminhados para o tal ”hotel” prometido onde nos deram umas sandes que ninguém conseguiu comer e onde nem sequer havia água para tomarmos banho, aliás a água para beber também foi posta de parte. Mas sempre pensámos que íamos descansar depois do que tínhamos passado e quando chegámos aos quartos encontrámos uma base com um colchão e um mosquiteiro por cima da cama que servia para as prostitutas e quem se servia delas, se limparem.
Regressámos ao avião e lá bebemos uns copos de água daquela que levámos e sem comer nada porque as rações de voo tinham sido dadas à miudagem. Com uma temperatura a rondar os 30 graus, o avião quentíssimo daquelas horas ao sol e os mosquitos a atacarem como uma verdadeira esquadra de caças, passámos uma noite terrível. No dia 23OUT74 descolámos cerca das 09 horas fazendo MTWARA/NAMPULA/BEIRA sem vermos a cidade pois tal foi-nos vedado quando vimos os quartos e quisemos procurar outro hotel. Estivemos sempre “guardados” por elementos do exército tanzaniano. Deixámos os elementos da FRELIMO em Nampula, regressámos à Beira e nunca mais os vi pessoalmente. No meu caso específico apanhei colibacilose e paludismo o que atrasou o meu regresso à metrópole e fui tratado pelo Dr. Colarinha que não apanhou doença nenhuma!!! Houve outros elementos da tripulação que também ficaram doentes e durante bastante tempo.
Olegário Silva
SMOR/FAP




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